Tem algo de podre também no reino empresarial

Multas bilionárias. Acordos judiciais para evitar julgamentos. Recall de milhões de automóveis. Vazamento de dados bancários.
Há cada vez mais empresas globais que, ora por vender carro que pode matar, ora por enganar os clientes que investem e tomam dinheiro emprestado, estão se confessando culpadas.
Acabo de somar apenas as maiores multas que bancos pesos pesados concordaram em pagar nos últimos dois anos para encerrar processos judiciais nos  Estados Unidos e no Reino Unido.
A bolha que estourou há 7 anos por negligência de banqueiros e agentes reguladores custou o emprego, a casa, e, sem exagero, a comida a um número incalculável de famílias.
Foi a Grande Recessão, a pior em um século, da qual o mundo até hoje não consegue sair.
Pois as mentiras já custaram aos bancos, por baixo, o equivalente R$ 167,5 bilhões.
A maior multa coube ao Bank of America: R$ 66,5 bilhões, anunciada em agosto do ano passado.
Até há pouco, a imagem dos bancos vinha sendo a mais prejudicada.
Mas depois que o maior escândalo da indústria automobilística veio à tona, há um mês, a Volkswagen, que se declarou culpada por fraude, separou o equivalente a R$ 28 bilhões para fazer frente às despesas que terá com processos fantásticos e com o recall de 11 milhões de unidades movidas a diesel.
Antes disso, os acordos judiciais já grassavam entre as indústrias do setor. A Toyota, que acaba de recuperar o posto de maior do mundo, é também, até agora, a que assinou a maior multa: R$ 4,8 bilhões.
Mas a General Motors compete com as outras grandes tanto no que se refere a multas quanto ao número de recall (só hoje, anunciou outro, de 1,4 milhão de unidades velhinhas, com mais de 10 anos de uso – nenhuma vendida no Brasil).
A GM já fez acordo judicial no valor de R$ 3,6 bilhões. Mas só depois de matar 124 pessoas, segundo estimativas de mais de uma entidade, o que, diga-se, a empresa nega.
Só em 2014, mais de 16 milhões de seus carros voltaram às revendedoras para reparar defeitos graves saídos de fábrica.
Atravessamos uma verdadeira epidemia de escândalos corporativos.
Que se estendem às empresas de computação.
A IBM é a novidade do dia. Está nas manchetes internacionais.
A empresa informou que vem sendo investigada desde agosto pelo organismo que, nos Estados Unidos, fiscaliza as empresas cujas ações são negociadas nas bolsas de valores.
Um mistério ainda ronda essas investigações. Sabe-se que se referem a negócios feitos nos Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda.
Esta semana, os ingleses ficaram muito preocupados com uma importante telecom. Até 4 milhões de clientes da Talk Talk, operadora de telefone e internet, podem ter tido seus dados bancários e de cartão de crédito invadidos por hackers.
Detalhe: um adolescente de 15 anos passou a noite na cadeia. Foi solto hoje sob a condição de se reapresentar à polícia assim que for chamado. O garoto é, até agora, um dos suspeitos de ter invadido o sistema da poderosa empresa – que deveria ter zelado mais e melhor pelas informações sigilosas dos clientes. Para dizer o mínimo.
Só pra dar uma ideia: as multas recentes acordadas por bancos e automotivas que menciono ultrapassam R$ 183 bilhões.
Dá 3,5 vezes o déficit público revisto hoje pelo governo brasileiro para 2015. E que será superior a R$ 50 bilhões. Outro vexame.