Entre os campeões da recessão, da inflação e da deseducação

A recessão brasileira só não será pior do que a da Venezuela este ano. O PIB vai encolher 3,5%, segundo a estimativa mais recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada ontem. Ou mais do que isso.

Outro gigante internacional, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), está mais pessimista: preocupadíssima com os países emergentes – mesmo aqueles que (felizmente) têm altas reservas externas como a gente – trabalha com uma recessão de 4% no Brasil. Está no relatório sobre a economia global divulgado hoje, que alerta, inclusive, para os riscos de instabilidade financeira decorrentes dos baixos preços das matérias-primas das quais dependemos.

Foi justamente por causa da baixa procura por essas matérias-primas, que o mercado internacional passou por uma convulsão durante a semana de carnaval. Prevaleceu a dúvida sobre a capacidade de pagamento das empresas que já demitem a rodo pelo mundo, e cujo desempenho depende, por exemplo, de minério de ferro, grãos, metais, petróleo ou aço. Ato seguinte, espalhou-se o pânico de que calotes corporativos desencadeariam a inadimplência do próprio sistema bancário.

Até que a China voltasse de seu feriado de ano novo, o que aconteceu segunda-feira.

O presidente do Banco Central chinês foi logo avisando que tudo daria certo, e os índices começaram a sair do vermelho. Leia-se: o governo vai injetar dinheiro para garantir que a roda da atividade econômica continue girando.

Em seguida, Rússia e Arábia Saudita, dois dos três maiores produtores de petróleo do mundo, prometeram que parariam de aumentar a produção. E o barril, que era negociado abaixo dos US$ 30, sinalizando mais deflação e desaceleração global, voltou a valer um pouco mais (no momento em que escrevo, ligeiramente acima dos US$ 35). Com ele, as ações das petrolíferas.

O acordo, até agora muito mal explicado, forneceu a segunda desculpa de que o mundo precisava para reverter o humor dos mercados.

Bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa também contribuíram, dando pistas de que atuarão para não piorar o confuso quadro mundial.

Goste-se ou não desses ‘mercados’, são eles que espelham mais rapidamente o que pode acontecer com o emprego, a renda, ou  o poder de compra de famílias e empresas.

Corta para o Brasil.

Rebaixado de novo pela agência de risco Standard & Poor’s, e com dois relatórios pra lá de preocupantes do FMI e da OCDE, saiu também hoje o tamanho da recessão do ano passado. Trata-se de uma estimativa do Banco Central, sujeita a correções. Mas o número  é muito ruim: 4%.

Se a prévia não estiver muito errada, e a estimativa da OCDE para este ano se confirmar, teremos perdido 8% de nosso Produto Interno Bruto apenas entre 2015 e 2016.

Os recordes negativos de inflação, desemprego, vendas, arrecadação e contas públicas são desanimadores e só nos levam a temer que os maus números se confirmem. (A exceção são as contas externas, que resistem à tempestade. Mas o relatório de hoje da OCDE não deixou dúvidas. Desta vez, situação confortável no balanço de pagamentos não vai poupar ninguém.)

Detalhe não menos importante: a Organização é a mesma que, este mês, publicou outro levantamento mundial. Sobre educação. O Brasil está entre os dez piores de 64 países avaliados.

A crise política?

É o ingrediente de que não precisávamos para agravar o quadro geral. Mas a paralisia, tanto do Executivo quanto do Legislativo, é destaque de todas as instituições internacionais no capítulo “Brasil”.

Pois é. Estamos entre os campeões mundiais da inflação, da recessão, da má educação e da corrupção.

Tá bom pra presidente Dilma? Tá bom pro PT?