O calote mais cruel da dívida pública

Quando os mercados despencavam de novo nesta madrugada, o governo da China anunciou outra medida para injetar mais dinheiro na economia.
Mostra que país está determinado a inflar a bolha de consumo doméstico.
Ainda que forçado, é um alívio para o resto do mundo, que depende da China para manter a roda da produção interna girando.
Essa é uma razão importante para o dólar seguir calmo aqui no Brasil, apesar da bagunça política e da consequente paralisia na política econômica.
Mas está longe de ser um bote de salvação para nós, que assistimos, impotentes, à corrosão da moeda, reconquistada a duras penas no fim do século 20.
Disfarçado de remarcação de preços, não tenha dúvida de que a inflação já é um tipo disfarçado de calote na dívida pública, que não para de crescer pela razão que todos sabemos: a leviandade com que é tratado o dinheiro que todo dia somos obrigados a pagar aos cofres dos governos.
Por ser dissimulado e insidioso, a inflação é também o calote mais cruel que um governante impõe à população.
As famílias de mais baixa renda são as que pagam primeiro. E do pior jeito, pois vivem para comprar bens de primeira necessidade e de baixo valor unitário.
Mas todos estão mais pobres.
Seja porque o salário compra menos, seja porque o Imposto de Renda come uma parte maior dos ganhos nominais (lembre-se que o percentual retido na fonte não foi corrigido).
Pelo mesmo motivo, o dinheiro que as pessoas prevenidas procuram guardar está rendendo menos.
Há muitos anos a taxa de juros real não estava tão baixa no Brasil.
Os investimentos nunca rendem a famosa “Selic” integral do Banco Central. E ainda pagam Imposto de Renda.
Veja seu saldo líquido de investimento de 31 de dezembro de 2014.
Divida por 100.
Multiplique o resultado por 10,67 (que foi a inflação oficial do ano) e some ao saldo de dezembro de 2014.
O total é maior do que o saldo líquido que você vê no extrato de 31 de dezembro de 2015 (claro que é preciso descontar eventuais depósitos feitos ao longo do ano)?
A diferença é o que rendeu de fato o seu investimento.
Sinto informar que, se o rendimento foi positivo em 2015, vai ser menor ao fim de 2016.
O Banco Central sentou em cima da Selic (que apenas baliza os investimentos dos mortais comuns).
Só que a sra Dilma fez de tudo e mais um pouco para levar a inflação aos dois dígitos.
Mais cruel do que isso?
Só inflação empobrecendo você na boca do caixa do supermercado, ao mesmo tempo em que a pior recessão da história desemprega uma legião de brasileiros.
Sim.
Já estamos pagando, através da remarcação de preços, as pedaladas fiscais da sra. Dilma Rousseff.
E isso não há governo chinês que conserte.