What’s next?

Dilma tem muito a ensinar a Trump.
É impressionante a semelhança entre a retórica, bem como várias declarações de intenção, de Dilma e do recém empossado presidente americano.
Com a diferença, claro, de que, dado o tamanho do PIB, os gestos e as atitudes dele reverberam com uma força sísmica no planeta.
Passei as últimas 3 semanas em Nova York.
Meu primeiro passeio foi à Trump Tower. Estava curiosa para ver o aparato de segurança, os desvios, a circulação de pedestres e policiais diante desse evento inédito na avenida mais famosa do mundo.
Valeu a pena. Foi surreal ver os guardas perguntando a cada um onde iam. A passagem era franqueada a quem respondia “Gucci” ou “Armani”. Os outros precisavam atravessar a avenida e passear pela calçada do outro lado.
A Tiffany, que fica bem na esquina, revestia (não sei se ainda reveste) com uma capa de seu famoso azul turquesa as divisórias de metal portáteis usadas pela polícia para redirecionar pedestres. A julgar pelo noticiário, e também pelas poucas pessoas que vi entrarem na loja, a iniciativa de marketing não teve efeito no faturamento da joalheria.
(A propósito, o objetivo da minha viagem também foi, tk God, o parto de uma sobrinha querida. Impressionante como, nestas horas, um bebê faz bem à nossa alma. O presidente ricaço nos surpreende mal, o noticiário nos desanima, mas, diante de uma lindeza recém-nascida ali mesmo, no coração de Manhattan, eu me senti revigorada. Viva as novas gerações.)
Nos últimos 20 dias, fiz uma imersão no jornalismo americano – e nos museus, que ninguém é de ferro.
Zapeei freneticamente por varias redes de TV, abertas e fechadas, de diferentes ideologias.
Quanto aos jornais impressos, procurei ler mais o Wall Street Journal, conhecido conservador e simpatizante dos republicanos, do que o New York Times, liberal e sempre tão atacado pelo presidente eleito.
Busquei, enfim, o máximo de equilíbrio possível no bom jornalismo.
Quem sabe alguém não me convence que, afinal, o que Donald Trump promete fazer não é, de fato, tão insano quanto parece?
Foi uma boa decisão.
Aprendi, por exemplo, que Obama não foi tão perfeito quanto dizem muitos da grande mídia.
Ele reduziu a independência da SEC, o órgão de fiscalização das empresas com ações negociadas em bolsa, entidade quase sagrada do passado recente. Tratava-se do temido xerife das sociedades anônimas que, por dividirem sua propriedade com o público, estão sujeitas a penas e multas duríssimas se mentirem em balanços ou nas previsões de lucro.
O guardião do mercado americano que inspirou a nossa CVM (Comissão de Valores Mobiliários) foi esvaziado.
Obama também ‘vacilou’ no fim da Grande Recessão que começou em 2008. Tomou determinadas decisões que mantiveram a retomada dos Estados Unidos abaixo dos patamares históricos registrados depois das crises.
O país está em pleno emprego, sim, mas o crescimento segue anêmico, o que resulta em fraca recuperação dos salários e pode muito bem explicar a natural frustração do eleitor que desembocou na vitória do candidato que, apesar de bilionário, representa o anti-establishment.
Curiosa por entender os contras, mas principalmente em busca dos possíveis prós de medidas que parecem a volta a um passado tenebroso de perseguição religiosa, racista e sexual/sexista, o resultado foi que cheguei ontem ao Brasil com um sentimento de tristeza em relação ao que vem pela frente em termos planetários.
No começo da viagem, brincava com meu marido dizendo que o PT tinha muito a ensinar a Trump.
Xingar a mídia? Ameaçar jornalistas? Dar preferência a repórteres de veículos amigos?
Ih, Lula pode contar, de cátedra, como isso funciona.
Desafiar o Congresso? Contrariar o ritual do próprio partido e subverter as regras de etiqueta do bom convívio entre legisladores?
Formar um gabinete presidencial cheio de sobreposições de cargos e funções, onde muitos se odeiam e ninguém sabe quem manda no quê? Criar órgãos?
Dilma é PHD em tudo isso. Pergunta pra ela.
Os congressistas americanos estão tontos.
Um influente senador quer prestar contas à suas bases, os exportadores de soja, sobre o rompimento do acordo comercial do Pacífico. Parece ser o setor mais prejudicado por um dos primeiros atos de Trump na presidência, e o parlamentar tentou se informar com o encarregado do assunto na Casa Branca.
Até hoje, ninguém sabe quem manda nas exportações de soja, tamanha é a confusão de nomes, cargos e órgãos que cercam o salão oval.
Fala sério, temos rica experiência recente sobre tudo isso.
Política econômica fiscalista (gastadora) e inflacionária: outra prática que Dilma domina como poucos.
Já que Trump faz questão de seguir desconhecendo a história, ele bem poderia meramente checar com ela os efeitos de curto prazo de tal caminho (euforia, yey!, índices de aprovação nas alturas 👏👏), e os de médio (inflação, escassez de mão de obra) e longo prazo (atraso, baixa produtividade, decepção do eleitor).
O texto continua. Parte II a seguir, sobre um assunto também incrível!