Ketchup, sabonete e sorvete

Grande história sobre um “senhor” embate corporativo, com um desfecho tão surpreendente quanto inédito no momento em que o mundo se inclina para o protecionismo e luta para preservar os empregos locais, cada vez mais ameaçados pelos avanços tecnológicos:
a gigante Kraft Heinz, americana, tentou comprar a inglesa Unilever, ainda maior do que ela.
Na semana passada, fez uma oferta inesperada e ambiciosa, como é de seu estilo.
Seguiram-se dias tensos dos dois lados, acompanhados com grande atenção pelos mercados de todo o mundo. Tanto uma quanto a outra têm ações negociadas em bolsas, e o que se viu foi um vai e vem danado de cotações em meio a muita especulação.
Em lances que foram do patriotismo (e envolveram a primeira-ministra da Grã-Bretanha, Theresa May) a uma guerra de relações públicas, passando por escritórios de advocacia e enormes consultorias financeiras, quem levou a melhor, para surpresa geral do planeta, foi a companhia que defende investimentos de longo prazo, pensa em sustentabilidade, e sacrifica lucros imediatos.
Em outras palavras, a Kraft Heinz, com fama de vencedora e reputação de ser obstinada por cortes de custos, demissões e aumento de lucro, sofreu um desgaste planetário e saiu de mãos vazias.
Entre o anúncio de que a oferta fora feita e a retirada da proposta, na tarde de um domingo, passaram-se não mais que 3 dias.
Uma história que não se vê todo dia, não.
Para quem, como eu, está vendo ou já viu a viciante série Billions (Netflix), a ficção soa cada vez mais real.
Como se estivéssemos num verdadeiro faroeste de cérebros que trocaram o colarinho branco do século XX pelo jeans e camiseta.
Como no figurino do malvado Bobby Axe, o personagem de Damian Lewis no seriado.
Para nós, as idas e vindas das negociações ficam ainda mais interessantes por terem sido capitaneadas pelo grupo de monstros sagrados do empreendedorismo brasileiro liderado por Jorge Paulo Lemann.
Foi o primeiro fora que eles levaram na briga pelo controle de uma empresa.
E por ora, eles, que são donos do maior grupo de cervejas do mundo (e muito conhecidos também por seus ketchup e hambúrguer –  para ficar só nesses exemplos), seguem lucrando quantias astronômicas, porém, sem o sabonete, o sorvete, a margarina e tantos outros produtos fabricados pela britânica Unilever, com que sonharam até a semana passada.

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Segue uma pérola dessa briga, mencionada em reportagem do Financial Times por uma pessoa da Unilever: à “agressão extrema com um sorriso no rosto” típica do candidato a comprador, os ingleses responderam com “uma rejeição extrema com um sorriso no rosto”.

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Entendi.